Amélia Vieira | A TARDE
Não tem ocorrido novos pedidos de credenciamento de instituições de ensino superior privadas interessadas em atuar em Salvador. Após o boom de faculdades particulares ocorrido a partir de 1999, o setor vem passando por uma fase de adequação da oferta de vagas à demanda.
Em 2008, três instituições fecharam as portas em Salvador e cursos foram desativados, notadamente nas áreas de turismo, ciências econômicas e ciências contábeis. Esta, contudo, é uma tendência que vem ocorrendo em todo o País. "É um ajustamento da dimensão do sistema à demanda, visando equalizar a oferta de vagas", analisa Nadja Viana, presidente da Associação Baiana de Mantenedoras do Ensino Superior (Abames).
Um dado do Brasil que se repete na Bahia espelha bem esta situação. Apenas cinco cursos concentram 50% dos universitários brasileiros: administração, direito, pedagogia, enfermagem e contábeis. Mas, se por um lado há concentração de vagas na área de ciências sociais aplicadas, por outro há carência nos segmentos de agrárias e saúde.
Faltam, por exemplo, cursos de engenharia voltados às necessidades das empresas que compõem o Polo Petroquímico de Camaçari, na região metropolitana de Salvador (RMS). "Isso não é favorável para o setor, pois educação é estratégica para o desenvolvimento socioeconômico de Salvador e, assim, deveria atender às várias vocações", salienta Nadja.
Todo esse desequilíbrio, ressalta Nadja, é reflexo da ausência de uma política pública nacional para a expansão do ensino superior. O grande gargalo para o acesso ao ensino superior privado, aponta a presidente da Abames, é o financiamento.
Desproporção - Isso pode ser facilmente visualizado através dos números. Enquanto 85% dos estudantes cursam o ensino básico na rede pública, 78% dos universitários cursam o terceiro grau na rede privada. "É uma desproporcionalidade. "A distribuição de vagas nas redes pública e privada de ensino superior é desigual. E não há política de inclusão, com bolsas e financiamentos", diagnostica Nadja.
A batalha que Natália Mattos Bittencourt, 18 anos, trava para ingressar na faculdade retrata esse desequilíbrio. Com trajetória escolar totalmente cumprida na rede pública de ensino, ela sentiu as deficiências na sua formação ao tentar entrar na universidade pública. Na primeira tentativa, há três anos, chegou a ser aprovada para a segunda fase da Universidade Federal da Bahia (Ufba), em biotecnologia. “Quando fui fazer a prova, notei que nunca tinha visto muitos assuntos. Fui prejudicada porque no terceiro ano quase não tive aulas e os professores não estavam qualificados”, avalia Natália, que agora cursa o pré-vestibular social Pierre Bourdieu.
Censo - O último Censo realizado pelo Ministério da Educação, em 2008, mostra o panorama das Instituições de Ensino Superior (IES) no Brasil. São 2.252 IES no País, sendo 236 públicas e 2.016 privadas. Do total de IES, 432 estão no Nordeste, sendo 125 delas na Bahia, Estado com maior número na região. Das 125 instituições na Bahia, 118 são privadas e há apenas sete públicas. O segundo Estado do Nordeste, Pernambuco, tem 96 IES, sendo 25 públicas.
Pelo Censo, a Bahia ofereceu, em 2008, 131.159 vagas para 249.265 candidatos, sendo que apenas 61.447 ingressaram, ficando 53,2% das vagas ociosas. A taxa de ociosidade baiana é superior à nacional (49,6%) e à do Nordeste (34,9%).
Enquanto sobram vagas na rede privada, faltam professores na Universidade Estadual da Bahia (Uneb). Segundo a diretora da Associação dos Docentes da Uneb (Aduneb), Maria do Socorro Soares Ferreira, a carência é de 775 professores e apenas cerca de 300 vagas devem ser preenchidas por concurso próximo. Baixos salários são apontados por Socorro como o ponto de desestímulo.
Salvador abriga o maior dos 24 campi que a Uneb tem espalhados pelo Estado. A política salarial, acrescenta Socorro, afugenta docentes da Uneb, que migram para instituições federais ou mesmo privadas.
“Defendemos a Uneb pela sua importância, mas ela precisa de melhor estruturação. O atual governo tem uma política de desrespeito e desvalorização, com a suspensão de incentivos, como a promoção e a progressão”, enfatiza a diretora da Aduneb.
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